Uma casa de família, um lar, uma unidade de cuidados paliativos ou uma ambulância representam circunstâncias distintas no fim de uma vida. Nem sempre, porém, os registos estatísticos permitem reconhecê-las com rigor. Uma classificação criada na Universidade de Coimbra quer colmatar essas diferenças e recebeu a aprovação da Comissão Estatística das Nações Unidas.
Designado International Classification of Dying Places (ICP), o instrumento estabelece uma base comum para identificar locais de morte e de prestação de cuidados em fim de vida. A sua integração na Família de Classificações Internacionais da ONU abre caminho à adopção pelos países e à produção de estatísticas comparáveis.
Na origem do trabalho está uma questão que acompanha a investigação de Bárbara Gomes: em que medida as pessoas conseguem ser cuidadas e morrer no lugar onde desejam? A investigadora da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e do Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia dedica-se há mais de 20 anos aos cuidados paliativos e propôs a criação desta classificação.
A resposta exige informação que os actuais sistemas nem sempre fornecem. As categorias nacionais são incompletas e variam entre países, explica a investigadora. A comparação acaba, por isso, muitas vezes reduzida à oposição entre casa e hospital, sem garantir que os dados de diferentes territórios correspondem às mesmas realidades.
A ICP introduz uma descrição mais pormenorizada. Distribui os locais por cinco grandes categorias: habitação ou domicílio, instituições de saúde ou de outros cuidados, outras instalações, veículos e espaços exteriores.
Dentro destes grupos, as subdivisões permitem distinguir, por exemplo, uma residência própria de uma habitação colectiva, um serviço de urgência de uma unidade de cuidados intensivos ou uma ambulância de outro meio de transporte. Estão igualmente previstas instituições autónomas de cuidados paliativos, lares, unidades de cuidados continuados e centros de saúde. Quando o local não se enquadra nas opções existentes, pode ser especificado livremente; quando é desconhecido, essa condição também fica registada.
O objectivo não se esgota em localizar a morte. A equipa pretende melhorar o conhecimento dos percursos de cuidados que a antecedem e criar condições para relacionar esses percursos com a vontade das pessoas.
Bárbara Gomes sublinha que as preferências não são necessariamente definitivas: podem ser revistas à medida que a doença avança, consoante o apoio existente e os cuidados necessários. Saber onde alguém morreu, sem conhecer esse contexto, oferece apenas uma parte da informação.
A classificação resulta de estudos realizados ao longo de quatro anos no projecto EOLinPLACE, apoiado pelo Conselho Europeu de Investigação. A investigação envolveu parceiros em Portugal, nos Países Baixos, nos Estados Unidos e no Uganda, bem como representantes de doentes e cuidadores, familiares e profissionais.
Com a aprovação da ONU, os países são encorajados a utilizar a ICP nos seus registos. A expectativa é que dados mais completos ajudem a orientar os cuidados paliativos, o apoio social e outras respostas públicas, incluindo em contextos de crise humanitária.





