A liberdade andou por aqui – “Visita Guiada II” – Opinião – Maria Isabel Sousa

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Texto de Opinião

Maria Isabel Sousa

A liberdade andou por aqui – “Visita Guiada II”

A identidade de um povo ou de uma comunidade prende-se com grandes venturas (e desventuras), feitos, ações e momentos épicos vividos e que determinaram a forma como esta chegou ao presente. Continua válida a tese do grande historiador dos Annales, Fernand Braudel, “História é passado e presente, um e outro inseparáveis.” Conhecer o passado, ajuda-nos a entender o presente e melhor perspetivar o futuro. Portanto, conhecer o nosso passado, através dos vestígios que se encontram mais próximo de nós, é um exercício com muitas virtualidades para todos, ajudando-nos a ir ao encontro de referências e valores que nos devem guiar no presente e que devemos deixar como uma herança aos vindouros. A história e o património local deveriam fazer parte dos currículos escolares, desde o primeiro Ciclo do Ensino Básico. Desde cedo, transpor os muros da escola e realizar visitas na sua envolvente e no meio, criar situações de aprendizagem in loco, envolvendo alunos (e sempre que possível as suas famílias), teria um impacto muito positivo e significativo na construção do conhecimento dos alunos e dos jovens.

Quem se interessa pela história da Figueira da Foz constata que existiram momentos épicos e ações gloriosas, ao longo do tempo, em que a vontade popular foi sintomática do pendor dos figueirenses para valores humanistas, do qual destaco a liberdade. Não irei falar da participação dos figueirenses na Revolução do 25 de Abril de 1974, mas recuarei ao início do séc. XIX, quando os exércitos de Napoleão invadiram o nosso país (e a Figueira da Foz) e paradoxalmente a esta invasão, os soldados espalharam no nosso território os valores supremos da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. As populações da Figueira, martirizadas durante este infausto episódio, souberam retirar dele os melhores ensinamentos, que lhe valeram muito em épocas em que foram chamados a agir.

No início do séc. XIX a Figueira da Foz foi “brindada” com a inevitabilidade das Invasões Francesas. A 30 de novembro de 1807, as tropas do general Junot entram em Lisboa, um dia depois da corte portuguesa (entre ais e uis) ter embarcado para nossa então colónia do Brasil. Por valentia ou cobardia, esta debandada deixou o nosso país à mercê dos desacatos dos franceses e, mais tarde, dos ingleses que, como nossos históricos aliados, se comportaram tão mal como os invasores… mas adiante.

A Figueira, como povoação costeira, esteve por demais exposta a esta invasão, sofrendo, em abril de 1808, a ocupação do Forte de Santa Catarina. Por essa altura, as populações da então vila da Figueira foram espoliadas de todas as formas pelos invasores, quer em mantimentos, quer em contribuições monetárias de toda a espécie. O epicentro desta tomada da Figueira foi o Forte de Santa Catarina, uma marca patrimonial indelével da nossa cidade, muito pouco conhecida na sua essência pelos locais, que se ficam pela observação exterior do mesmo, ou por beber uns copos e ouvir música no seu interior (mais recentemente). Voltando a 1808, perante esta invasão e ocupação do forte pelos franceses, surgiu na alma do povo uma sensação de humilhação e afronta que gerou, a breve trecho, rebeliões e motins. A Figueira, tal como o país, sentia-se “órfã de rei” e chegaram a aclamar como rei o regente D. João, que continuava tranquilamente no Brasil, deixando o seu povo desamparado. O povo da Figueira, pouco preparado para a guerra, mas sentindo os constrangimentos desta presença indesejada, armou-se com ferramentas agrícolas e demais utensílios do quotidiano para afugentar o invasor. Contou ainda com uma ajuda preciosa de um batalhão académico que saiu de Coimbra em 25 de junho de 1808, em direção à Figueira, constituído por 40 homens voluntários e 30 universitários, chefiados pelo académico Zagalo (Bernardo António Zagalo), sargento de artilharia e estudante universitário. Pelo caminho, foram juntando centenas de populares que armados com tudo o que tinham à mão, chegaram à Figueira no dia seguinte, tendo prendido no Forte muitos franceses, cercando a edificação e obrigando a guarnição francesa a render-se pela falta de mantimentos. Após refregas várias, eis que os franceses foram todos presos, e mandou-se içar a Bandeira Portuguesa no Forte de Santa Catarina, com salvas de artilharia. O dia 27 de junho tornou-se um dia histórico para os figueirenses, pois nesse dia o Forte de Santa Catarina e a vila da Figueira foram libertados do invasor francês.

A continuação da presença dos franceses entre nós e o perigo do seu regresso à Figueira da Foz, fez com que se preparasse uma armada Inglesa para desembarcar no nosso país, auxiliando-o na sua libertação. Essa esquadra armada, composta por milhares de soldados, comandada pelo general Arthur Wellesley (futuro duque de Wellington), chegou à Figueira no dia 30 de julho de 1808, e desembarcou, de 1 a 5 de agosto, nas praias de Lavos. Em Lavos, precisamente, ainda existe uma casa que se crê ter sido a habitação de Wellesley durante a sua permanência na região.

Por todo o país houve uma ação de rejeição ao invasor, pelo que a primeira invasão terminou na sequência da capitulação dos franceses na cidade de Sintra, a 21 de agosto de 1808.

No que nos diz respeito, o Forte de Santa Catarina e referida habitação em Lavos, contam episódios extremamente relevantes da libertação da Figueira e de Portugal das mãos do invasor. Para além de visitas guiadas ao local, com alunos e todos os que se interessam por estas temáticas, questiono-me muitas vezes se este não seria um argumento perfeito para um filme, ou uma série nacional, que fizesse um tributo à Figueira da Foz na luta contra o jugo dos Franceses. Aliás, existem teses que defendem que foi no nosso país que a “águia Imperial” começou a sofrer os mais duros golpes, dos quais viria a morrer.

Glória a todos os que lutaram (e lutam) pela liberdade. Este valor inalienável, consagrado na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) e reavivado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), deverá sempre ser uma bússola orientadora de todos, devendo ser transmitido aos nossos alunos o mais cedo possível, a fim de criarmos cidadãos conscientes do seu papel no meio em que vivem e no mundo, fazendo a diferença, na esperança de tornar sustentável um futuro melhor.

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