Memória cultural nos 170 anos de António dos Santos Rocha – Opinião – Pe. Nuno Filipe Fileno

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Texto de Opinião

Pe. Nuno Filipe Fileno

Memória cultural nos 170 anos de António dos Santos Rocha

Cumpriram-se, neste 30 de abril, 170 anos do nascimento de António dos Santos Rocha, figueirense notável, que, na viragem do século XIX para o século XX contribuiu para a valorização e desenvolvimento da arqueologia, não só no concelho da Figueira da Foz, mas também a nível nacional, liderando várias escavações arqueológicas, que trariam à luz do presente a identidade mais remota de um povo. Foi o grande responsável pelo surgimento do museu municipal figueirense em 1894, que atualmente porta na denominação o reconhecimento agradecido da comunidade pelo seu fundador. Grande parte do seu espólio é, ainda hoje, resultado das investigações deste especialista em Direito, que se enamorou pela História e a arqueologia. No castro de Santa Olaia, Santos Rocha encontrou vestígios que apontam para uma presença humana na região a partir do Neolítico, presença confirmada por vários monumentos funerários megalíticos encontrados nas Serras de Alhadas, Brenha e da Boa Viagem. Hoje, graças ao seu contributo e de tantos que o seguiram, a Figueira da Foz sabe que a sua identidade profunda está neste desígnio de ser porto, fronteira fértil entre o mar profundo e desconhecido e as terras altas onde a retina se alarga e os pés assentam firmemente. A proximidade do mar e a fecundidade da terra justificam a fixação humana desde longa data e reforçam a ancestralidade da cultura, que ainda hoje, sacraliza a vulnerabilidade da vida a partir de uma grande valorização dos rituais funerários e o culto dos mortos. Este foi, aliás, um aspeto que sempre me surpreendeu positivamente na cultura religiosa figueirense e que guardo como rica experiência humana e pastoral. De facto, quem tem o mar a bater-lhe constantemente à porta compreende melhor a trascendentalidade de cada hora no carácter precário do tempo. Com efeito, compreendemos, na esteira do egiptólogo alemão Jan Assmann, que a memória cultural compreende “aquele corpo de textos reutilizáveis, imagens e rituais específicos de cada sociedade em cada época cujo ‘culto’ serve para estabilizar e transmitir essa auto-imagem da sociedade”1
Sem a História a iluminar o que somos perdemo-nos facilmente em visões parciais que nos desintegram no tempo e no espaço, por isso, nunca é demais valorizar quem nos ajuda a fixar os pés na terra e a reconhecer que todos nascemos com uma filiação cultural que, não diminuindo as potencialidades do futuro, nos leva a ler o presente de forma reconciliada. Nem sempre a História que nos gerou foi feliz, nem sempre nos revemos hoje nas suas opções, mas a tarefa que o presente constantemente nos coloca não é a de apagar o passado, mas a de sermos capazes de projetar o futuro, procurando corrigir já agora os eventuais erros de outrora.
“A memória só é enxertada e cresce nos humanos como parte do seu processo de socialização; é verdade que é sempre apenas o indivíduo que ‘tem’ uma memória, mas esta memória é influenciada pelo coletivo”2, escrevia noutra obra Jan Assmann. A memória cultural é, por isso, não só um vestígio do que fomos mas é sempre a interpretação do que somos. Em cada tempo a tarefa é alargá-la e guardá-la como uma preciosa garantia da nossa liberdade.
Hoje, volvidos 170 do nascimento de Santos Rocha, reconheço o valor do seu trabalho, pois, graças a ele, tantos de nós, ‘estrangeiros’ em terras figueirenses compreendemos melhor o campo que pisamos, sendo-nos dada, simultaneamente, a oportunidade de participar da memória coletiva desta bela comunidade.

1 ASSMANN Jan, Collective memory and culture identity, in “New German Critique” 65 (1995) 125-133, 132.
2 ASSMANN Jan, La memoria culturale. Scrittura, ricordo e identità politica nelle grandi civiltà antiche, Torino, Einaudi, 1997, 11;

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