Escola. Ainda um elevador social? – Opinião – Maria Isabel Sousa

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#33cccc;”>Maria Isabel Sousa

#33cccc;”>Escola. Ainda um elevador social?

 

No mês em que se (re)inicia a escola, faz sentido falar da escola como veículo de crescimento pessoal e social.

Se durante séculos a educação esteve circunscrita a grupos sociais mais elevados (clero, nobreza e mais tarde, burguesia), na atualidade vivemos, no nosso país, uma total democratização do ensino.

Durante séculos, o saber era restrito a muito poucos, conferindo grande prestígio e poder a quem o dominava, mesmo que se restringisse às mais rudimentares técnicas de leitura e escrita. O saber, pertencendo aos mais poderosos, aos mais próximos do poder temporal ou espiritual, fazia destas pessoas seres que dominavam uma legião de analfabetos, desprovidos de espírito crítico e iniciativa, que se deixavam explorar, sem conseguirem mudar o satus quo vigente.

Com a Revolução Industrial, o capitalismo comercial, industrial e financeiro fez alterar o conceito de riqueza. Se, inicialmente, estava assente em bens imóveis (terras e o consequente domínio dos homens que as habitavam), passou a centrar-se em bens móveis (metais preciosos/dinheiro). Neste contexto, emergiu uma alta burguesia que apostava todas as fichas numa educação mais esmerada dos seus descendentes. O surgimento da classe média, a partir do séc. XIX, e o seu fascínio pela réplica do modelo social da burguesia, fez com que estes também passassem a enviar os seus filhos para as escolas, suportando as despesas que implicava a manutenção da sua descendência num estabelecimento de ensino.

Durante esse tempo dedicado aos estudos, o jovem preparava-se para as exigências futuras e para alcançar o êxito profissional, económico e social. O saber prestigiava e conferia poder. Mesmo assim, ainda era uma pequena percentagem da sociedade que frequentava a escola, estando a maioria do povo (filhos de assalariados agrícolas, comerciais e industriais) afastados desse bem, uma vez que os pais necessitavam que a sua descendência trabalhasse e auferisse um salário, desde a infância. Será também no final do séc. XIX e início do séc. XX, que surgiram as primeiras mulheres a frequentarem escolas dos vários níveis de ensino, sendo verdadeiramente excecional a frequência das mesmas no ensino superior. Ao longo do séc. XX, muitos foram os países que viram na reforma da escola um caminho para a modernidade tecnológica e económica. A instrução passou a ser vista como potenciadora de uma alavancagem económica e civilizacional do país.

Portugal, até ao 25 de abril de 1974, ainda continuava a ser um país demasiado atrasado, não se tendo inspirado no paradigma dos países mais desenvolvidos da Europa e do Mundo. O analfabetismo era ainda muito elevado, provavelmente cultivado pelo Estado Novo, que dispensava a existência de uma população instruída que pudesse colocar questões e dificultasse o fluir do sistema.

Foi nos alvores da democracia que se iniciou um movimento intenso de alfabetização de adultos e se começou a concretizar a verdadeira democratização do ensino. Pela primeira vez, filhos de operários e agricultores puderam estudar nos mais diversos níveis de ensino, obtendo o conhecimento e o prestígio suficiente, que os colocava em cargos profissionais e cívicos, nunca antes alcançáveis. Paulatinamente, o Estado tomou na sua mão o apoio aos estudantes mais carenciados e a pobreza deixou de ser um handicap para a ascensão social, com base num maior nível de instrução. Já não era preciso ser “Fi’dalgo” para atingir o mais alto nível da escalada social. Porém, na prática, muitos eram ainda os atavismos que impediam estes filhos do povo de atingir estes níveis de instrução e prestígio profissional e social. No 4.º quartel do séc. XX e no séc. XXI, já não são só os filhos de famílias tradicionalmente instruídas que atingem níveis de escolaridade mais elevada. Constata-se uma emergência dos filhos do povo que, por um ato de coragem e muita vontade, se dedicam e trabalham a fim de cumprirem este desiderato, procurando nos mais altos níveis de instrução um elevador social.

Mas, uma vez chegados aos anos vinte do nosso século, é expectável que muitos jovens, ao cumprir a escolaridade obrigatória, ingressem no ensino superior. A vulgarização do acesso às universidades fez com que todos os anos sejam lançados milhares de jovens no mercado de trabalho, que, o nosso país, devido ao crónico atraso económico e tecnológico, não tem capacidade de os absorver, nem de lhes pagar os justos salários, de acordo com a sua formação. Muitos jovens têm procurado outros países para exercerem a sua profissão com melhores condições. Estranho país este, que se esforça por aumentar a escolaridade das suas populações, despendendo dinheiro nessa missão, mas que exporta, a custo zero, milhares de jovens altamente qualificados, que não encontram saídas profissionais em Portugal.

A instrução, entenda-se, não deve ser encarada no sentido académico universitário tradicional. Deve ser vista num vasto leque de cursos profissionais e tecnológicos e cursos não superiores, mas que conferem a formação adequada para trabalhos extremamente necessários e que, neste momento, são igualmente bem pagos.

Seja a formação universitária, profissional e tecnológica, todas constituem uma mais valia que altera, de forma indelével, a vida dos nossos jovens, capacitando-os para um futuro melhor e para uma robusta sustentabilidade económica.

A escola continua a ser um elevador social? Sim, sim e sim. Sempre sim. O Estado deve acarinhar este setor, os seus profissionais e discentes, a fim de criar uma escola de elevada qualidade, proporcionadora de crescimento e boas perspetivas futuras, tanto ao nível individual, como nacional.

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