Figueira da Foz no séc. XX, cidade de acolhimento – Opinião – Maria Isabel Sousa

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#33cccc;”>Maria Isabel Sousa

#33cccc;”>Figueira da Foz no séc. XX, cidade de acolhimento

Há muitos séculos que a região onde hoje se encontra implantada a cidade da Figueira da Foz, devido à sua situação geográfica, recebia visitantes, mais ou menos permanentes. O mar e o rio foram, desde os tempos mais remotos, excelentes vias de comunicação que facilitaram o encontro e a comunicação com o outro. A rede de estradas e o caminho-de-ferro facilitaram a chegada à Figueira da Foz, muitos veraneantes, sobretudo espanhóis, que vinham em busca dos benefícios da praia, desde os finais do séc. XIX. Muitas dessas famílias espanholas contribuíram para uma animação espetacular da cidade, em especial na altura estival. Estes, acabaram por comprar casas na cidade, nas quais residiam em férias alargadas de verão, juntamente com as suas enormes famílias. Muitos casamentos e batizados se realizaram na nossa cidade. A sua maneira de ser, os seus hábitos e costumes, acabaram por cativar os locais, que replicaram a sua forma de vida mais alegre e mundana. Também, muitos foram os que casaram com cidadãos locais e por cá continuam a viver. Outros regressaram na altura da reforma, para viver os seus últimos dias nesta cidade encantadora, sobretudo pela sua praia e pelo casino.

Durante a II Guerra Mundial, muitos judeus em fuga do regime nazi na Europa, devido a um ato de vontade e justiça de Aristides de Sousa Mendes (e de outros “justos”), chegaram à cidade da Figueira da Foz (assim como a muitas outras cidades costeiras portuguesas que os acolheram). A vinda destes judeus, embora numa situação transitória, não deixaram de marcar o modus vivendi da nossa cidade. Os seus hábitos mais urbanos, a frequência de cafés e do casino no Bairro Novo, da praia, a sua forma de vestir e o seu comportamento mais livre, influenciaram os locais numa forma mais  moderna de viver. Nos jornais da época encontram-se notícias sobre artistas judeus que passaram pela nossa cidade e que atuaram nas nossas salas de espetáculo. Eram também frequentes anúncios de explicações, lições e outros serviços, assim como notícias de casamentos, especialmente daqueles que permaneceram mais tempo na nossa cidade. Os que ficaram deixaram marcas na Figueira da Foz, outros estiveram na cidade em trânsito, especialmente para viajar para “o novo mundo”, em especial para os Estados Unidos da América. Muitos descendentes, ainda regressam regularmente  na ânsia de encontrar o local de salvamento dos seus antepassados.

Durante o Estado Novo, a debandada de figueirenses rumo aos países europeus que ofereciam melhores salários e melhores condições de vida, tornou o nosso concelho mais magro de gentes. Mas, com a independência das colónias portuguesas, a partir de 1974/75 a Figueira da Foz viu chegar muitos refugiados desses países em guerra. Portanto, o 25 de Abril e o processo de descolonização, fizeram chegar a Portugal milhares de refugiados/ retornados. Muitos, descendentes de Portugueses da “Metrópole”, nunca tinham estado no nosso país. Nessa altura, utilizando medidas algo aleatórias, muitas dessas pessoas foram enviadas para todas as partes do país. Para a Figueira da Foz vieram muitos desses repatriados (ou retornados, como as pessoas de Portugal gostavam de os denominar, algo pejorativamente). Uma vez que as colónias tinham atingido graus de desenvolvimento económico e de urbanismo muito superior à Metrópole, tais refugiados trouxeram para o nosso país novas vivências, gostos, formas de estar e de vestir, que muito espantavam a população Figueirense. Mais livres, mais alegres, mais abertos e comunicadores, com hábitos saudáveis que passavam pela fruição das praias, os passeios, as caminhadas, o cinema, e sobretudo, o desporto. Chegou, nessa altura, à Figueira, um conjunto de desportistas, que vieram reforçar as associações desportivas, nas várias modalidades. Exemplificativa desta nova dinâmica desportiva, foi a constituição de uma equipa de basquetebol, no Ginásio Clube, que arrastava multidões e somava vitórias. Foi uma época gloriosa para o nosso desporto. E as escolas? Estas encheram-se de alunos, em todos os níveis de ensino, com características étnicas e culturais diferentes. Aquela riqueza cultural, não foi indiferente aos locais, que se renderam a novos conhecimentos e gostos trazidos por estes ex-habitantes dos trópicos. A falta de professores, nessa altura, foi uma realidade. Muitos deles iniciaram a sua carreira no ensino sem terem a formação profissionalizante para ensinar, mas eram absolutamente necessários. As escolas abarrotavam de gente e de turmas. Nessa altura ocuparam-se novos espaços, sendo de salientar o Colégio de Santa Catarina. Essas pessoas deixaram marcas indeléveis na forma de ser e de estar da comunidade Figueirense, que se modernizou e contribuiu para um upgrade cultural e civilizacional.

Mais tarde, no início da década de 90, o fim da URSS ditou que muitos Ucranianos e demais povos oriundos dos novos países saídos da Ex-União Soviética, escolhessem a nossa cidade para morar. Muitos permaneceram até hoje entre nós, tendo continuado as suas vidas, completamente integrados e reconhecidos na nossa comunidade. Atualmente, a guerra da Ucrânia, voltou a ditar a vinda de mais pessoas dessas paragens. Uns permanecem aqui por pouco tempo, outros ficaram para sempre entre nós, marcando a nossa cidade e a nossa cultura. 

Nas últimas décadas, temos recebido cidadãos chineses, paquistaneses e de muitas outras nacionalidades, que têm escolhido a nossa cidade para viver. Neste momento, a Figueira da Foz está cheia de cidadãos Brasileiros à procura de uma vida mais segura e estável do que no seu país.

Todos eles, mesmo TODOS, são bem-vindos, se na sua cabeça estiverem motivações que passam por melhorar a sua vida pessoal, através do trabalho, contribuindo para o crescimento económico do nosso país e a sustentabilidade do sistema contributivo e de segurança social.

E nós figueirenses, o que somos? Somos uma súmula de muitos povos e raças, que temos acolhido com um sentimento inclusivo, de respeito e tolerância que nos orgulha. O futuro dos figueirenses será esta matriz identitária dos originários do concelho, mas também de muitos que não tendo nascido na nossa cidade, a amam e a sentem como sua. 

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