Mentira – Não há pulgas virgens – Opinião – António Carraco dos Reis

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Texto de Opinião

António Carraco dos Reis

Mentira – Não há pulgas virgens

 

Não sei bem se era dos meus ouvidos ou da ligeireza de algumas bocas mas a coisa está, efetivamente, grave.

A mentira está em saldo, abunda. O dia faz-me lembrar a nossa ponte Edgar Cardoso, à medida que vou passando por ambos olho e vejo o que não era suposto ver. Fraca comparação entre os jacintos e a mentira – os jacintos são verdadeiros – estamos de acordo.

Talvez seja do frio, do sacrifício para os presentes de natal, talvez seja dos orçamentos ou dos pagamentos – da necessidade primeira de fazer parecer ser algo que não se é, e ter o que não se tem – a fobia da verdade, a velha-nova pandemia.

Quando eu era pequenino foi-me ensinado que mentir era feio e não se fazia. À medida que fui crescendo introduziu-se uma nova noção que escutamos frequentemente a “mentira inofensiva” – diz ao vendedor que não está cá ninguém!.

Presentearam-me, as últimas semanas, especiais e tão frequentes sinais, dessa mentira tão presente e odorante que lhe sentimos até o calor, que agora digo que descobri os principais dois motivos que leva um claro perfil de pessoas a fugir à verdade. Esses dois principais motivos para mentir são (um) por tudo e (dois) por nada.

Não há pulgas virgens, é certo, mas já que meio mundo foge outro meio, assumam-se os viris.

Para não mentirmos convém que entendamos a mentira como algo próximo daquilo que possa ser uma fuga intencional à verdade e, por sua vez, a verdade sendo um discurso ou perspetivas conformes com a realidade – para quem a diz ou pensa.

Somos adultos, e cada um faz o que entende, mas parece-me que o uso da mentira para a construção de relações sociais, institucionais ou apenas de um ego, é curto e pobre, venenoso e frágil – para todos.

Para as pulgas virgens: ao invés da mentira, se não souberem lidar com a verdade, usem do silêncio – e do tempo que ele (o silêncio) nos dá para se aprender a lidar com a realidade.

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