Março, mês da mulher e da leitura – Texto de Opinião – Maria Isabel de Sousa

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Texto de Opinião

Maria Isabel Sousa

Março, mês da mulher e da leitura

Finalmente chegámos a março, depois de um inverno exigente, chuvoso e frio. Os raios de sol fizeram regressar os passarinhos, que no local onde vivo alegram as minhas manhãs.

Como mulher, orgulhosa da minha condição, não poderia deixar passar em branco esta comemoração. O dia 8 de março é dedicado a nós, mulheres. Seguramente não gostaria de ter nascido mulher nos séculos passados. Não aceitaria não poder tomar na minha mão as rédeas do meu destino. Nessa sociedade patriarcal, estaria completamente subjugada aos homens da família, o pai (ou por falta deste, de um irmão) e, de seguida, passaria para a esfera da autoridade do marido. Não tinha autoridade de estabelecer, pessoalmente, qualquer contrato. O marido seria uma escolha dos meus pais e não estava envolvido qualquer sentimento no início dessa união. No caso de não surgir o noivo esperado, certamente iriam enclausurar-me num mosteiro, onde viveria o resto dos meus dias. Nesses edifícios religiosos, tanto existiam freiras/monjas provenientes da mais baixa camada social, como de elevada condição social, para as quais não tinha aparecido um noivo à sua altura. Passaria frio e fome, para que os da minha família se pudessem alimentar e aquecer primeiro. Carregaria água para casa, porque não havia água canalizada na minha habitação. Faria o meu próprio pão, com os grãos convertidos em farinha, no forno da aldeia. Dificilmente frequentaria a escola, saberia no máximo os rudimentos da leitura e da escrita. Não leria livros, jornais ou revistas. Saberia pouco do mundo. Uma vez casada, teria os filhos todos que a natureza me concedesse, sem que tivesse qualquer vontade própria para impor um limite. Devido às dificuldades de vária ordem e ao poder concedido aos homens, provavelmente seria vítima de violência doméstica, não me podendo queixar a ninguém, por ser comummente aceite este tipo de tratamento para com a mulher. Ficaria em casa e cuidaria dos filhos, das terras próximas e do gado e tratava da (magra) alimentação para a família. Em época de guerras ou invasões, para além de ver todo o mal que faziam a todos os meus e à minha casa, ainda não raras vezes era vítima de todo o tipo de abusos. Triste realidade esta!

A mulher, chegada ao século XX, iniciou a sua afirmação. Começou (timidamente) a frequentar escolas, a entrar no mundo do trabalho, a frequentar locais de sociabilidade e a conviver saudavelmente com pessoas de outro género. Começou a encantar-se e a fazer escolhas. O casamento deixou, paulatinamente, de ser um contrato e passou a ser uma escolha. A mulher lutou pelo direito de voto. A mulher começou a frequentar cursos liceais e universidades. A autonomia e o crescimento do papel da mulher na sociedade seria um processo lento e muito sofrido. Ainda hoje a mulher representa uma percentagem maior das vítimas da violência no namoro, na família, no trabalho e nos demais meios onde se move. A mulher continua a esforçar-se mais para se manter ao nível de todas as responsabilidades familiares e profissionais que lhe cabem. A mulher não desiste, ela ousa desafiar séculos e séculos de subjugação e encontra-se, hoje, em lugares cimeiros nas empresas, nos estados, nos organismos públicos e privados, na política e na sua própria casa. A mulher é hoje, na sua maioria, o centro de famílias monoparentais. A mulher decide, hoje, quando e quantos filhos quer ter, se o quer fazer acompanhada, ou sozinha.

A lei da paridade continua a ser a prova (mais do que provada) que é preciso a “amarra” da lei, para que a igualdade seja respeitada. Quando um dia essa lei não fizer sentido, estaremos no bom caminho.

Encanta-me ler biografias de mulheres que, ao longo da história, desafiaram o paradigma vigente. Com cerca de 10 anos li, pela primeira vez, a biografia de “Marie Curie” e fiquei fascinada. Tantas outras se seguiram. Incuti princípios e valores que tento materializar constantemente, mesmo sabendo que a sociedade ainda vive com laivos do passado. Devo muito aquilo que sou às leituras que iniciei em criança, fomentadas pela biblioteca pública e itinerante.

A leitura é uma ótima ferramenta, da qual nunca nos deveríamos separar, porque ela faz-nos viajar no tempo, no espaço, nos contextos e conjunturas, aguça-nos o sentido crítico e a criatividade, faz-nos viver a vida de outras personagens. Faz-nos sonhar e fazer acontecer.

Por isso, leiam, leiam muito, porque o futuro está mesmo ao virar de cada página.

 

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