Uma Floresta ao serviço do futuro – Opinião – David Monteiro

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Texto de Opinião

David Monteiro

Uma Floresta ao serviço do futuro

Verão em Portugal é sinónimo de vários eventos e fenómenos: os santos populares, que anunciam o princípio da estação; as romarias às praias de Norte a Sul; o regresso temporário dos nossos emigrantes e, nos últimos anos, de vagas de calor anormais, que, invariavelmente, resultam em grande incêndios florestais. Contudo, as ondas de calor vieram para ficar e vão nos obrigar a uma adaptação e alteração clara na paisagem que compõe o nosso país.

De facto, a floresta portuguesa arde com frequência, sempre que temos ondas de calor prolongadas surgem os grandes incêndios. Mas é natural que assim seja, uma vez que as condições climatéricas favorecem a que qualquer ignição aumente e mantenha o consumo de combustível, durante vários dias. Atualmente, a única forma que temos para combater estes cenários é a ação rápida junto das ignições. Nesse âmbito, a CIM Região de Coimbra está a dar cartas com o seu Sistema Integrado de Videovigilância para a Prevenção de Incêndios Florestais, que possui 18 torres de vigilância para garantir uma resposta pronta e eficaz às ignições. O resultado tem sido bastante positivo. Prova disso, é o facto de não termos, até ao momento, registo de nenhum fogo de grandes dimensões, no distrito de Coimbra, ainda que o Centro Metrológico da Lousã tenha batido o recorde de temperatura, nos últimos dias.

Porém, nem todo o território português é semelhante. Apesar do nosso distrito ser um bom espelho do território nacional, as especificidades de certos locais obrigam a uma reforma profunda da floresta para garantir a segurança e manter o nosso parque arbóreo.

Assim, o Governo decidiu avançar com o BUPI (Balcão Único do Prédio), uma plataforma que pretende mapear todo o país, no âmbito das propriedades. Esta é uma ferramenta estrutural para qualquer plano florestal, especialmente num país, onde o Estado apenas detém 2% da toda a área florestal. Um projeto ambicioso e que certamente se prolongará no tempo, por constituir um garante para uma floresta organizada e segura para o futuro. Só com um país mapeado será possível implementar aquela que é a única solução possível para mitigarmos os grandes incêndios que nos afetam: a coletivização da floresta.

O que é a coletivização da floresta? É a junção pelo Estado de muitas parcelas florestais reduzidas, para assim, criar uma grande parcela florestal, com escala suficiente para conseguir implementar diversificação de espécies, corta-fogos e os acessos necessários para a sua manutenção, garantindo assim uma floresta mais rentável, sem terrenos abandonados e acima de tudo, mais segura. Não obstante do referido, para o projeto ter resultado será necessário pagar aos pequenos proprietários a devida compensação pela sua cedência, garantido ou mantendo uma fonte rendimento essencial para a economia de muitos territórios de baixa densidade. Para além disso, considero interessante introduzir neste pagamento o mercado de carbono, adicionando à rentabilidade do corte o custo da retenção de CO2, que aquelas áreas florestais garantem.

Normalmente, acreditaria na gestão estatal para um projeto desta dimensão, contudo os resultados que a CELPA está a obter, em Pedrogão, com a recuperação de 130ha pertencentes a 50 proprietários diferentes, demonstram que este esforço poderá ser feito numa parceria entre o público e o privado. No entanto, acredito que a maioria terá que ser feita pelo Estado, porque nem todo o território florestal pode ser rentável.

A segurança será sempre o principal motivador de uma alteração desta dimensão, porém uma floresta rica também é parte integrante do objetivo português de atingir a neutralidade carbónica em 2050, sem afetar profundamente a economia. A nossa redução de emissões só será suficiente se aumentarmos a captação de CO2, no nosso território e isso, só será possível com um grande parque arbóreo de Norte a Sul.

As temperaturas elevadas serão recorrentes, nas próximas décadas, por isso, a única forma de garantirmos o fim de grandes incêndios florestais é fazendo uma alteração profunda da paisagem. Este deverá constituir um dos desígnios do nosso país, nas próximas décadas, pela segurança e pelo futuro.

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