Rainha das praias? – Opinião – Pedro Miguel Jorge

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#33cccc;”>Rainha das praias?

Ouvimos e lemos, ainda hoje, referências à cidade da Figueira como tendo sido outrora a “Rainha das praias” em Portugal, em geral com um tom marcadamente saudosista e de quem não se conforma com a perda da glória passada que tanto custa a reconquistar. Mais: perpassa muitas vezes nestas opiniões uma certa indignação pela falta de reconhecimento desta superioridade por parte de muitos sectores da sociedade, como se aquela fosse inquestionável e auto-evidente. Com todo o respeito por todas as opiniões, exporei a minha: a Figueira não precisa de epítetos completamente datados e vazios de sentido, como se afirmações destas, meramente retóricas, fossem necessárias para lhe enaltecer as qualidades que efectivamente possui.

Em primeiro lugar: a palavra rainha remete-nos para um universo que Portugal (muito bem) rejeitou há quase 112 anos, para uma instituição que, tendo sido parte fundamental da nossa história e formação identitária, está mesmo lá – na história – onde, sinceramente, deverá ficar, devendo ser estudada e integrada como parte da nossa génese, mas nunca recuperada para o presente ou futuro. A ideia de que à Figueira bastaria a sua “excelsa natureza”, vinda de uma qualquer “superioridade inata” que o conceito “rainha” encerra, é francamente obtusa e desprovida de qualquer sentido nos dias de hoje. As palavras significam, e devem ser medidas quando usadas.

A reforçar esta ideia está um exercício que poderíamos fazer seguindo o mesmo raciocínio: se a Figueira era rainha, o que eram todas as outras? Súbditas? Bem, a realidade subsequente mostrou que a rainha poderá ter-se acomodado e perdido o seu estatuto (o que seria uma contradição em termos) ou que os portugueses, sobretudo a partir de finais da década de 70 do século passado, começaram a querer outra coisa, que estava no Algarve, uma região até então muito plebeia, que destronou a rainha sem piedade.
Em suma: este epíteto não serve para descrever o que a Figueira é, ainda que seja legítimo e humano lembrar outros tempos, em que se foi feliz e em que estão contidas muitas vezes algumas das memórias mais felizes das nossas vidas. Celebremo-las como tal, mas sem epítetos ocos, é a minha sugestão.

Depois, o que significa esta expressão? “Rainha das praias” está indissociavelmente ligada a um tempo em que o turismo de massas ainda não existia em Portugal, e em que apenas uma parte reduzida da população se podia dar ao luxo de “ir a banhos” durante a época estival. Era um contacto com todo um mundo de “glamour” ajustado à nossa medida (portuguesa), com as idas ao casino e ao cinema e o passeio social no Bairro Novo, para ver e ser visto – o que, de resto, é absolutamente banal e semelhante ao presente. Não me interprete mal, cara leitora e caro leitor; não estou a criticar, nem por um momento, o facto de tantas famílias, figueirenses ou não, terem construído as tais memórias familiares de uma infância feliz. Gosto tanto como qualquer um de ver fotos da época, de tentar saber o que a Figueira significava para os figueirenses nesta altura, sobretudo para os meus familiares, enfim, como a Figueira era importante para tantas pessoas, sabendo como, tal como hoje, esse turismo é tão importante em termos da economia da cidade e do concelho. Apenas quero lembrar que estas férias não eram ainda possíveis para uma grande fatia da população, maioritariamente pobre e oprimida por um Estado Novo que estratificava a sociedade, em ricos e pobres, “senhores doutores“ e o restante povo não formado, enfim, entre os que “eram alguém” e uma vasta massa de anónimos que se remediavam como podiam. É essa carga de “exclusividade” e elitismo que a expressão “rainha das praias” encerra que me leva a afirmar que esta é hoje completamente anacrónica e que deve ser, tal como já afirmei, deixada na história.

Pergunta-me então, cara leitora e caro leitor, onde quero chegar com esta reflexão. Essencialmente, desejo reflectir consigo sobre como a Figueira não precisa de expressões vazias para ser especial para todos os que cá habitam e nela se revêem, ou dela têm memórias, construídas ao longo de vários anos e de várias gerações. A Figueira tem o que necessita para ser especial para as suas gentes e para quem nos visita – precisamente, as suas gentes, nem mais: dedicadas à sua terra e ao seu concelho, empreendedoras, sempre preocupadas com o próximo passo a dar no sentido de tornar a Figueira um local onde apetece estar e aonde apetece ir. Oiço muitas vezes opiniões que afirmam que está tudo parado na Figueira, que tudo está mal, que não sabemos tomar decisões certas. Muitas delas deixam entrever que o ideal era um regresso a “um passado glorioso”, normalmente mitificado, algo de resto tão português que não chego a estranhar muito. Desconfio muito de opiniões deste tipo. São pouco sustentadas na realidade e ignoram muitas vezes os “pecados” do passado, que não tem só coisas boas.

Há muito a fazer? Há, com certeza, tal como no resto do país. Aliás, uma cidade, uma região, um país, nunca estão “feitos”. Fazem-se permanentemente. E são as pessoas que os fazem. Neste momento, parece-me que é essencial que os jovens figueirenses – tal como no resto do país, cada vez mais qualificados – queiram cá ficar e ajudar a criar as condições para que a cidade, mais do que agarrada a ideias de passado, possa criar um futuro cheio de memórias tão boas ou melhores do que as actuais. Para tal, há que construir um presente com passos seguros, em que todos contam (quem está, quem quer ficar e quem nos quer visitar), com instituições e serviços em que todos se reconheçam, num concelho que tem na sua cidade central um local que respeita o ambiente e combate as alterações climáticas, fazendo jus à beleza natural e diversificada com que a natureza a brindou.

Isto não é pouco, e é certamente mais do que narizes-de-cera completamente desprovidos de sentido.

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