Nascer na Figueira da Foz – Opinião – Maria Isabel Sousa

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Texto de Opinião

Maria Isabel Sousa

Nascer na Figueira da Foz

Aproxima-se o Natal, a maior festividade religiosa do ano. Como o Natal significa implicitamente a ideia de nascimento, resolvi dissertar sobre como é nascer na Figueira da Foz.

A Figueira da Foz foi a terra de nascimento de muitos homens e mulheres da minha idade, tanto da cidade, como das freguesias, cujas mães vinham ter o parto em segurança numa maternidade digna, conhecida pela “Casa da Mãe” e que laborava desde 1947. Este equipamento de saúde trabalhou durante três décadas (até meados dos anos 70) e trouxe à luz do dia muitos figueirenses de várias gerações. Mais tarde, os nascimentos foram transferidos para a maternidade do Hospital Distrital da Figueira da Foz. Atualmente, não temos maternidade na cidade. Houve um retrocesso nos cuidados de saúde, portanto. Orgulho-me, igualmente, de ter sido mãe na Figueira da Foz. Fiz questão que os meus filhos nascessem nesta cidade, tal como eu, desta vez não em S. Julião, mas em S. Pedro. Contribuí positivamente para as estatísticas. Tudo decorreu na maior segurança. 

Um parto é um momento decisivo na vida da mãe e do filho, pelo que os sobressaltos podem acontecer nessa altura e marcar a ambos para toda a vida. É mais seguro e desejável que não se realizem viagens tão grandes para dar à luz a criança, há tanto tempo esperada. Qualquer risco deve ser evitado. Com o encerramento da maternidade na Figueira da Foz, as crianças começaram a nascer em Coimbra. As viagens por vezes são interrompidas, por casos emergentes, em que o parto se tem de realizar na ambulância na A14. Ganhámos em segurança? Não, claro que não! Até quando estes casos vão ter um final feliz? Oxalá não existam casos a lamentar nesta história de levar uma mãe em sofrimento, cerca de 50 kms e 45 min. de viagem.

Seria desejável devolver a maternidade à nossa cidade. Continuava a ser uma questão de escolha. Quem não gostasse que as suas crianças nascessem na Gala (em S. Pedro) e preferisse que fosse em Coimbra, estaria à vontade. Quem preferisse um serviço de proximidade, teria essa opção.

Nestes últimos meses, o fecho das urgências em certas especialidades, em particular de Pediatria, faz com que se repense, de novo, a segurança da saúde das crianças do Concelho da Figueira da Foz e de outras freguesias de outros concelhos a sul. Para além de negligenciarmos o apoio de proximidade às crianças que podem não resistir a uma viagem de meia centena de quilómetros, numa situação de aflição. 

Vivemos uma época de baixas taxas de natalidade, em especial nas famílias portuguesas, e o nosso concelho coloca nas mãos do acaso tanto os cuidados de saúde de proximidade na altura do nascimento, como durante a infância (sendo que a pediatria abrange jovens até aos 18 anos).  

Não estamos a fazer um bom serviço nesta matéria. Só quando surgem casos que fogem à norma é que são noticiados e se volta a falar no assunto, para logo se esquecer este problema do défice nos cuidados de saúde básicos e que podem fazer a diferença entre um nascimento saudável e um nascimento com sequelas, ou ainda um nascimento sem que o bebé venha com a sua família para casa…

Então as crianças não são o melhor do mundo?

“Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim?”

Augusto Gil

Votos de Feliz Natal para todos

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